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Poimandres: a subida da alma pelas sete esferas
O primeiro tratado do Corpus Hermeticum descreve a alma devolvendo, zona por zona, o que recebeu ao descer. O texto, a tabela — e o que a versão popular acrescentou.

O Poimandres é o primeiro tratado do Corpus Hermeticum: uma visão em que o intelecto divino, com esse nome, mostra a Hermes como o mundo e o homem vieram a ser. A passagem mais conhecida descreve o que acontece depois da morte. A alma sobe por sete zonas e devolve, a cada uma, uma das forças que tinha recebido ao descer — do crescer e diminuir, na primeira, à mentira, na sétima —, até chegar à oitava, onde canta com as potências. O texto não diz que as zonas são planetas; essa leitura é dos comentadores.
O que é o Poimandres
O Corpus Hermeticum é uma coletânea de tratados escritos em grego no Egito sob domínio romano, nos primeiros séculos da era cristã, e atribuídos a Hermes Trismegisto. O Poimandres abre a coleção, e é escrito como relato de visão: Hermes pensa nos seres, com a mente erguida e os sentidos do corpo retidos, como quem está sob um sono pesado, e alguém de tamanho sem medida o chama pelo nome.
Quem chama se apresenta assim, na tradução da Mystes a partir do grego:
"Eu", diz ele, "sou Poimandres, o intelecto da soberania. Sei o que queres, e estou contigo em toda parte."
Intelecto traduz aqui o grego noûs: não a razão que calcula, mas a faculdade que conhece o divino. Poimandres é esse intelecto em pessoa, e o que ele faz no tratado é ensinar.
O nome em si é um pequeno enigma. Zósimo de Panópolis, alquimista que escreveu por volta do ano 300, lia poimēn e anēr, "pastor de homens", e é a leitura que ficou. O egiptólogo F. Ll. Griffith propôs uma origem copta, "o conhecimento de Rá". Há ainda quem ligue o nome ao faraó divinizado Amenemhat III, transcrito em grego de formas parecidas. Nenhuma das três fechou a questão.
O que o tratado narra antes da subida
A subida só se entende a partir da descida, e o tratado conta a descida primeiro.
Do intelecto divino nasce um segundo intelecto, o demiurgo — o artesão do mundo. Ele fabrica sete governadores:
"sete governadores, que envolvem em círculos o mundo sensível — e o governo deles chama-se destino."
O conjunto desses sete círculos o texto chama de harmonia. A palavra grega quer dizer ajuste, encaixe, e é o sistema que prende o mundo sensível ao destino.
Depois o intelecto gera o Homem — não um homem de carne, mas a forma arquetípica, "tendo a imagem do Pai". Esse Homem quer também criar, desce até a esfera do demiurgo, e os sete governadores se enamoram dele: "cada um lhe deu parte da sua própria ordem". Então ele se inclina através da harmonia, vê o próprio reflexo na natureza lá embaixo, ama-o, e vem habitar com ela.
Daí a condição humana, dita numa frase que resume o tratado inteiro:
"Estando acima da harmonia, tornou-se escravo dentro da harmonia."
O ser humano é duplo — "mortal pelo corpo, imortal pelo homem essencial". E carrega em si, recebido na descida, alguma coisa de cada um dos sete governadores.
A subida da alma, zona por zona
A pergunta vem de Hermes, no fim da conversa: como se dá a subida? A resposta começa pelo que se desfaz antes de qualquer subida. O corpo se dissolve e a forma deixa de aparecer. O modo de ser da pessoa é entregue ao demônio — no grego, daímōn, a potência que acompanha cada um, sem o sentido cristão de espírito maligno. Os sentidos voltam às fontes de onde vieram. O ímpeto e o desejo passam para a natureza sem razão.
Só então começa a subida propriamente dita:
"E assim ele se lança daí para cima, através da harmonia. À primeira zona entrega a operação de crescer e a de diminuir; à segunda, o maquinar dos males, e a astúcia já sem operação; à terceira, o engano do desejo já sem operação; à quarta, a arrogância do mando, despojada da sua cobiça; à quinta, a audácia ímpia e a precipitação do atrevimento; à sexta, os maus impulsos da riqueza, já sem operação; e à sétima zona, a mentira que arma ciladas."
Em tabela, com o planeta que a leitura corrente dá a cada zona — e que o texto, repare, não dá:
| Zona | O que a alma devolve | Planeta, na leitura corrente |
|---|---|---|
| 1.ª | a operação de crescer e de diminuir | Lua |
| 2.ª | o maquinar dos males, a astúcia | Mercúrio |
| 3.ª | o engano do desejo | Vênus |
| 4.ª | a arrogância do mando | Sol |
| 5.ª | a audácia ímpia, a precipitação | Marte |
| 6.ª | os maus impulsos da riqueza | Júpiter |
| 7.ª | a mentira que arma ciladas | Saturno |
Um detalhe da passagem muda o sentido de tudo e costuma passar despercebido: a palavra operação. É o grego enérgeia — atividade, força em ação. O que se entrega à primeira zona é uma operação, a de crescer e a de diminuir; e na segunda, na terceira e na sexta o texto insiste que o devolvido vai já sem operação, como a arrogância da quarta vai "despojada da sua cobiça". A alma não destrói os vícios nem os vence numa luta. Devolve-os desligados à zona de onde vieram, como os sentidos, um parágrafo antes, tinham voltado às suas fontes. Nada se perde no cosmos do Poimandres. Cada coisa retorna ao lugar que lhe pertence, e o que sobe é o que resta quando tudo o que era emprestado foi devolvido.
O que acontece na oitava esfera
Despida das obras da harmonia, a alma chega ao que o texto chama de natureza ogdoádica — de ogdóada, "o oitavo". É o que está acima das sete: na imagem antiga do cosmos, a esfera das estrelas fixas. Ali ela canta o Pai com os que já estão lá, e ouve, acima dela, potências que cantam a Deus "com certa voz suave".
E então sobem de novo, em ordem, e se entregam às potências até estar em Deus. O tratado dá a isso um nome curto, e sem rodeio:
"Este é o bom fim para os que alcançaram o conhecimento: tornar-se deus."
Conhecimento, aqui, é gnôsis: não informação acumulada, mas o reconhecer que transforma quem o alcança. É a condição que o texto põe para a subida — não um rito nem uma prática, e sim o conhecimento de si como feito de luz e de vida.
Por que se lê a Lua na primeira zona e Saturno na sétima
Porque a leitura corrente sobe da Terra pela ordem caldaica, a sequência dos sete astros da astronomia antiga do mais rápido ao mais lento. Vista de baixo, ela começa na Lua e termina em Saturno, na borda do cosmos. E a sequência de vícios encaixa bem nessa escada.
Crescer e diminuir, na primeira zona, é o movimento da própria Lua, que cresce e míngua. Desejo na terceira, onde fica Vênus. Mando na quarta, a do Sol, o astro régio. Audácia na quinta, de Marte. Riqueza na sexta, de Júpiter. O encaixe é bom o bastante para que quase todo comentário moderno o adote — e é justamente por isso que convém lembrar que ele é leitura, não texto.
Há uma segunda razão para confiar nessa ordem, e ela vem de fora do Corpus. Macróbio, escritor latino do século V, no Comentário ao Sonho de Cipião (livro I, capítulo 12), descreve o caminho inverso: a alma descendo pelas mesmas sete esferas e recebendo de cada uma uma faculdade. De Saturno recebe o raciocínio; de Júpiter, a capacidade de agir; de Marte, o ardor; do Sol, o sentir e o imaginar; de Vênus, o desejo; de Mercúrio, a capacidade de exprimir e interpretar; da Lua, a força de fazer o corpo crescer.
Posto ao lado do Poimandres, o esquema de Macróbio mostra as duas metades de uma mesma ideia. O que a alma recebe como faculdade ao descer, devolve como operação ao subir. A Lua dá o crescimento e o recebe de volta. Vênus dá o desejo e recebe o engano do desejo. A diferença está no tom: Macróbio descreve forças neutras; o Poimandres descreve o que essas forças se tornam quando a alma, presa à harmonia, as usa mal.
A versão que circula em português, e o que ela acrescenta
Boa parte do que se lê sobre o Poimandres em português não vem do tratado. Vem da paráfrase publicada por Manly P. Hall em 1928, na seção "A visão de Hermes" do seu livro sobre os ensinamentos secretos das tradições, que foi traduzido e é reproduzido em sites.
Hall reescreve a subida com os planetas dentro da fala de Poimandres, entre aspas, como se estivessem no texto: no primeiro anel "senta-se a Lua", no segundo, Mercúrio, e assim até Saturno. E acrescenta coisas que o grego não tem — Saturno sentado "à porta do Caos", a Via Láctea como "celeiro das almas", de onde elas cairiam nos anéis, e uma "escada de sete degraus". A Via Láctea como origem das almas vem de Macróbio, não do Corpus; a escada lembra o que o filósofo Celso descreve dos mistérios de Mitra.
Hall juntou tradições diferentes numa narrativa só, e o resultado é bonito — mas não é o Poimandres. Quem cita a "visão de Hermes" com Porta do Caos e escada de sete degraus está citando Hall.
O que a subida pede de quem ainda está vivo
O tratado não trata a subida como assunto só do pós-morte. Pouco antes dela, Poimandres diz a quem ele próprio se faz presente — "aos santos, aos bons, aos puros e aos misericordiosos" — e o que acontece com essas pessoas ainda em vida: antes de entregar o corpo à morte, elas "aborrecem os sentidos, conhecendo o que eles obram". O intelecto se põe de guarda na porta e não deixa que as obras do corpo se cumpram.
Lido assim, o desligar de cada operação não espera a morte. É o trabalho de uma vida, e a subida depois dela é o que se descreve para quem já fez esse trabalho aqui. O próprio texto resume a exigência numa frase:
"Que o homem dotado de intelecto reconheça a si mesmo."
A imagem de subir por degraus, uma esfera de cada vez, é também a gramática do percurso em graus da Mystes — um percurso de estudo organizado na estrutura da Árvore da Vida, onde os mesmos sete astros ocupam cada um a sua esfera.
O que não se sabe
Não existe uma lista única dos vícios planetários, nem entre os antigos. O gramático Sérvio, comentando a Eneida por volta do ano 400, dá outra versão: ao descer, a alma traria de cinco planetas "a lentidão de Saturno, a ira de Marte, a lascívia de Vênus, a cobiça de Mercúrio e o desejo de mando de Júpiter". O mando, que a leitura do Poimandres põe no Sol, aqui é de Júpiter; e o Sol e a Lua nem entram na conta.
G. R. S. Mead, que em 1906 pôs lado a lado o Poimandres, Macróbio e Sérvio em Thrice-Greatest Hermes, admitiu que tentou reconciliar as três listas e que, ao tabulá-las, a confusão só aumentou. O Poimandres dá sete zonas e sete devoluções. Quais planetas moram em cada zona, o tratado deixa em silêncio — e o silêncio, num texto tão cuidadoso, pode ter sido escolha.
O Poimandres está na Biblioteca da Mystes, em tradução própria do grego e com audiolivro, junto dos outros tratados do Corpus, do Asclépio e da Tábua de Esmeralda — que, como mostra o artigo sobre a origem de "como acima, assim abaixo", não pertence ao Corpus, embora quase sempre venha publicada com ele.


