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Decanatos: os dois sistemas de regência, e por que discordam
Os 36 decanatos têm dois sistemas de regentes, e eles concordam em só nove. A tabela completa, a origem de cada um e o teste que mostra qual tabela é mesmo caldaica.

Decanato é cada um dos 36 trechos de dez graus em que o zodíaco se divide, três por signo. Cada trecho tem um planeta regente — e existem dois sistemas para dizer qual, que concordam em apenas nove dos 36. O tradicional percorre a ordem caldaica dos planetas a partir de Marte, no começo de Áries. O que circula hoje na maioria dos sites dá a cada trecho o regente de um signo do mesmo elemento, e só chegou ao Ocidente no século XX, vindo da Índia.
O que é um decanato
O zodíaco tem 360 graus, repartidos em doze signos de trinta. Cortar cada signo em três partes iguais dá 36 fatias de dez graus. Cada fatia é um decanato. A palavra vem do grego dékanos, formado sobre déka, "dez".
Em Áries, o primeiro decanato vai de 0° a 10°, o segundo de 10° a 20°, o terceiro de 20° a 30°. O Sol anda cerca de um grau por dia, então cada decanato corresponde, grosso modo, a dez dias do calendário. É por esse caminho que quase todo mundo chega à pergunta: quem nasceu em 5 de abril tem o Sol perto dos 15° de Áries, no segundo decanato do signo.
O decanato não substitui o signo. Ele o afina — diz qual dos três trechos está em jogo e dá a esse trecho um planeta próprio, chamado regente. É sobre esse planeta que os dois sistemas discordam.
De onde vem a divisão em 36
Os decanatos são mais velhos que o zodíaco de doze signos. Nasceram no Egito, como relógio.
Os egípcios escolheram 36 estrelas, ou pequenos grupos de estrelas, espaçadas ao longo do céu. São os decanos. Cada um passava uma temporada nascendo no horizonte pouco antes da aurora; depois de dez dias, o seguinte tomava o seu lugar. Trinta e seis decanos de dez dias somam 360 dias. Os cinco que faltavam para fechar o ano ficavam de fora da conta, como dias à parte.
O mesmo sistema media a noite. Enquanto estava escuro, doze decanos nasciam um depois do outro, e cada nascimento abria uma hora. Daí a noite egípcia de doze horas — uma das raízes do doze que volta, séculos depois, nas horas planetárias.
A prova mais antiga está num lugar que ninguém procuraria: pintada na face interna de tampas de sarcófago do século XXI antes de Cristo. São tabelas em que os nomes dos decanos descem em diagonal, de dez em dez dias, como um horário. A egiptologia as chama de relógios estelares. O morto era fechado com o céu de contar as horas acima de si. O conjunto desses textos foi editado por Otto Neugebauer e Richard Parker em Egyptian Astronomical Texts, publicado em três volumes entre 1960 e 1969.
A virada acontece em Alexandria, nos séculos que seguem a conquista de Alexandre. Ali o decano egípcio encontra o zodíaco babilônico de doze signos, e os 36 deixam de ser estrelas para virar trechos: dez graus cada, três por signo. O zodíaco de Dendera, relevo circular do teto de um templo de Hátor, do fim do período ptolomaico, mostra o encontro numa só peça — os doze signos no centro e os 36 decanos em procissão na borda. Foi levado para a França no século XIX e está no acervo do Louvre.
Quem rege cada decanato: os dois sistemas
Dar um planeta a cada decanato foi obra da astrologia que nasceu desse encontro. Há dois modos de fazer isso em uso hoje, e eles partem de lógicas diferentes: um segue a ordem dos planetas, o outro segue os elementos.
O sistema caldaico: a ordem dos planetas, sem interrupção
O sistema tradicional usa a ordem caldaica — a sequência dos sete astros da astronomia antiga, do mais lento ao mais rápido contra as estrelas: Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio, Lua. É a mesma ordem que organiza as horas planetárias e os dias da semana.
A regra cabe numa frase. O primeiro decanato de Áries vai para Marte, regente do signo, e dali se desce a ordem, um planeta por decanato, sem pular nenhum e sem recomeçar a cada signo. O segundo de Áries é do Sol, o terceiro de Vênus. O primeiro de Touro fica com Mercúrio, o segundo com a Lua, o terceiro com Saturno — e assim, volta após volta, até o fim de Peixes.
Trinta e seis decanatos são cinco voltas completas de sete planetas, mais um. Essa sobra se vê no fim da tabela: o último decanato de Peixes cai em Marte, e o primeiro de Áries também. Marte aparece duas vezes seguidas bem na passagem do ano astrológico, no ponto do equinócio.
Na tradição, essa atribuição se chama face. É a menor das dignidades essenciais, os graus de força que um planeta recebe pelo trecho do zodíaco em que está. William Lilly, em Christian Astrology (1647), dá à face um único ponto, contra cinco do domicílio. Na prática dele, ela servia sobretudo para uma coisa: um planeta na própria face não está peregrino, que é como a tradição chama o planeta sem dignidade nenhuma no lugar onde está. Séculos antes, o Picatrix, compêndio árabe de magia astral traduzido para o latim no século XIII, já dava a cada um dos 36 decanatos uma imagem própria.
O sistema de triplicidade: o elemento em três vozes
O outro sistema deixa a ordem dos planetas de lado e olha para os elementos. Os doze signos se agrupam de três em três — Fogo, Terra, Ar e Água —, e cada grupo se chama triplicidade. Áries, Leão e Sagitário formam a de Fogo.
A regra: o primeiro decanato de um signo pertence ao regente do próprio signo; o segundo, ao regente do signo seguinte do mesmo elemento; o terceiro, ao regente do último. Em Áries isso dá Marte (de Áries), o Sol (de Leão) e Júpiter (de Sagitário). Cada signo passa a ser lido como o seu elemento dito em três vozes.
O método vem da Índia. É o drekkana da astrologia indiana, descrito por Varāhamihira no capítulo XXVII do Bṛhat Jātaka, no século VI. E a história dá uma volta: segundo o estudioso M. Ramakrishna Bhat, o próprio nome drekkana não é sânscrito, mas empréstimo do grego — chegou à Índia pelo mesmo caminho que levou para lá a astrologia helenística.
No Ocidente, o sistema só entra no começo do século XX, com o astrólogo inglês Alan Leo, teosofista, que o adotou e o difundiu em língua inglesa. A versão que circula hoje traz ainda uma mudança que a de origem não tinha: onde o regente tradicional é Saturno, Júpiter ou Marte, ela põe os planetas descobertos depois da Antiguidade — Urano em Aquário, Netuno em Peixes, Plutão em Escorpião.
Onde os dois discordam
Lado a lado, os dois sistemas concordam em nove decanatos e divergem em 27. A primeira divergência aparece já no terceiro trecho de Áries: Vênus num, Júpiter no outro.
A tabela traz os 36. Ao lado do regente caldaico está a carta do tarô que a Golden Dawn associou a cada decanato — assunto mais adiante. Na coluna da triplicidade, entre parênteses, o regente moderno onde ele substitui o antigo.
| Signo | Decanato | Caldaico | Carta | Triplicidade | Iguais? |
|---|---|---|---|---|---|
| Áries | 1.º · 0°–10° | Marte | 2 de Paus | Marte | sim |
| Áries | 2.º · 10°–20° | Sol | 3 de Paus | Sol | sim |
| Áries | 3.º · 20°–30° | Vênus | 4 de Paus | Júpiter | — |
| Touro | 1.º · 0°–10° | Mercúrio | 5 de Ouros | Vênus | — |
| Touro | 2.º · 10°–20° | Lua | 6 de Ouros | Mercúrio | — |
| Touro | 3.º · 20°–30° | Saturno | 7 de Ouros | Saturno | sim |
| Gêmeos | 1.º · 0°–10° | Júpiter | 8 de Espadas | Mercúrio | — |
| Gêmeos | 2.º · 10°–20° | Marte | 9 de Espadas | Vênus | — |
| Gêmeos | 3.º · 20°–30° | Sol | 10 de Espadas | Saturno (Urano) | — |
| Câncer | 1.º · 0°–10° | Vênus | 2 de Copas | Lua | — |
| Câncer | 2.º · 10°–20° | Mercúrio | 3 de Copas | Marte (Plutão) | — |
| Câncer | 3.º · 20°–30° | Lua | 4 de Copas | Júpiter (Netuno) | — |
| Leão | 1.º · 0°–10° | Saturno | 5 de Paus | Sol | — |
| Leão | 2.º · 10°–20° | Júpiter | 6 de Paus | Júpiter | sim |
| Leão | 3.º · 20°–30° | Marte | 7 de Paus | Marte | sim |
| Virgem | 1.º · 0°–10° | Sol | 8 de Ouros | Mercúrio | — |
| Virgem | 2.º · 10°–20° | Vênus | 9 de Ouros | Saturno | — |
| Virgem | 3.º · 20°–30° | Mercúrio | 10 de Ouros | Vênus | — |
| Libra | 1.º · 0°–10° | Lua | 2 de Espadas | Vênus | — |
| Libra | 2.º · 10°–20° | Saturno | 3 de Espadas | Saturno (Urano) | sim |
| Libra | 3.º · 20°–30° | Júpiter | 4 de Espadas | Mercúrio | — |
| Escorpião | 1.º · 0°–10° | Marte | 5 de Copas | Marte (Plutão) | sim |
| Escorpião | 2.º · 10°–20° | Sol | 6 de Copas | Júpiter (Netuno) | — |
| Escorpião | 3.º · 20°–30° | Vênus | 7 de Copas | Lua | — |
| Sagitário | 1.º · 0°–10° | Mercúrio | 8 de Paus | Júpiter | — |
| Sagitário | 2.º · 10°–20° | Lua | 9 de Paus | Marte | — |
| Sagitário | 3.º · 20°–30° | Saturno | 10 de Paus | Sol | — |
| Capricórnio | 1.º · 0°–10° | Júpiter | 2 de Ouros | Saturno | — |
| Capricórnio | 2.º · 10°–20° | Marte | 3 de Ouros | Vênus | — |
| Capricórnio | 3.º · 20°–30° | Sol | 4 de Ouros | Mercúrio | — |
| Aquário | 1.º · 0°–10° | Vênus | 5 de Espadas | Saturno (Urano) | — |
| Aquário | 2.º · 10°–20° | Mercúrio | 6 de Espadas | Mercúrio | sim |
| Aquário | 3.º · 20°–30° | Lua | 7 de Espadas | Vênus | — |
| Peixes | 1.º · 0°–10° | Saturno | 8 de Copas | Júpiter (Netuno) | — |
| Peixes | 2.º · 10°–20° | Júpiter | 9 de Copas | Lua | — |
| Peixes | 3.º · 20°–30° | Marte | 10 de Copas | Marte (Plutão) | sim |
Os dois começam iguais porque partem do mesmo ponto: Marte, regente de Áries. Depois se cruzam só de vez em quando, onde a descida da ordem caldaica calha de encontrar o regente do elemento. Fora desses nove pontos, a mesma pessoa, com o Sol no mesmo grau, recebe dois planetas diferentes conforme a tabela que abrir.
Por que a tabela chamada de caldaica quase sempre não é
Quem pesquisa decanatos em português encontra os dois nomes com frequência: "sistema caldeu" e "sistema hindu". Em dois dos maiores portais de astrologia do país, a tabela apresentada como caldeia dá a Áries Marte, Sol e Júpiter, e traz Plutão, Netuno e Urano entre os regentes. É a tabela de triplicidade com o nome da outra.
Um teste resolve a dúvida em segundos, qualquer que seja a fonte. A ordem caldaica tem sete lugares, e só sete: Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio e Lua. Se a tabela tem Urano, Netuno ou Plutão, ela não é caldaica.
A recíproca não vale. Uma tabela de triplicidade com os regentes tradicionais também só tem os sete antigos. O que decide é o terceiro decanato de Áries: Vênus no sistema caldaico, Júpiter no de triplicidade.
Os decanatos e as cartas numeradas do tarô
Os 36 decanatos têm um parente no baralho. Os arcanos menores — as 56 cartas divididas em quatro naipes — trazem, em cada naipe, nove cartas numeradas de 2 a 10. Quatro naipes de nove dão 36. A Golden Dawn, ordem hermética inglesa do fim do século XIX, casou as duas séries.
A regra está no manuscrito que a ordem chamava de Livro T, atribuído a Samuel Liddell MacGregor Mathers, e funciona em três camadas:
- O naipe vem do elemento do signo. Paus para Fogo, Copas para Água, Espadas para Ar, Ouros para Terra.
- O número vem do tipo de signo. 2, 3 e 4 para os que abrem uma estação (Áries, Câncer, Libra, Capricórnio); 5, 6 e 7 para os que a firmam (Touro, Leão, Escorpião, Aquário); 8, 9 e 10 para os que a encerram (Gêmeos, Virgem, Sagitário, Peixes).
- O planeta é o regente caldaico do decanato. O 2 de Paus é Marte em Áries; o 10 de Copas, Marte em Peixes.
O número segue o tipo de signo, e não a ordem em que ele aparece no zodíaco, e a diferença importa. Em Fogo e em Água as duas ordens coincidem; em Terra e em Ar, não. Touro é o primeiro signo de Terra no zodíaco, mas é fixo, e por isso seus decanatos ficam com o 5, o 6 e o 7 de Ouros — os três primeiros números da Terra são de Capricórnio.
O Livro T também não começa a lista em Áries. Começa em Leão, no 5 de Paus, que é Saturno no primeiro decanato do signo: a Golden Dawn contava o zodíaco a partir de Regulus, a estrela que fica no coração do Leão. Os ases ficam fora da conta — representam a raiz de cada elemento, não um trecho do céu. E os 22 arcanos maiores recebem outra atribuição, por signo e por planeta inteiros, que não passa pelos decanatos.
Em que decanato está um planeta
Pelo grau. Um planeta a 12° de Câncer está no segundo decanato do signo; a 27°, no terceiro. O dia do mês só serve de atalho para o Sol, e mesmo assim com folga: a data em que o Sol muda de decanato varia de um ano para outro.
Para os demais planetas, só o mapa diz. O mapa astral traz o grau de cada um, e basta ver em que terço do signo ele cai.
A hora de nascimento pesa pouco nessa conta, com duas exceções. A Lua anda cerca de treze graus por dia e atravessa um decanato inteiro em menos de um dia, então, sem a hora, o decanato dela pode ficar em aberto. E o Ascendente depende da hora e do minuto: sem eles, não há decanato do Ascendente para calcular. O artigo sobre o mapa astral sem a hora de nascimento mostra o que se perde e o que continua legível nesse caso.
O que não se sabe
Quase nada sobre as estrelas de origem. Os nomes dos decanos egípcios são conhecidos, porque estão escritos nos sarcófagos e nos tetos dos templos; a maioria das estrelas a que eles se referiam, não. Sírius e Órion têm identificação segura. Para os demais, há propostas com graus variados de confiança, e a egiptologia não fechou a lista.
Vale também separar dois nomes que costumam andar juntos. "Caldaico" nomeia a ordem dos planetas, não os decanatos: os decanatos são egípcios, e o sistema que leva o nome da ordem é a aplicação de uma coisa à outra, feita na astrologia helenística.
Os 36 decanatos estão no Compêndio da Mystes, cada um com o regente pelo sistema caldaico e ligado ao signo e ao planeta de que depende — para consultar trecho por trecho.


