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Hermetismo

Corpus Hermeticum

Atribuído a Hermes Trismegisto · Ano do original desconhecido

Reunião de tratados escritos em grego, provavelmente entre os séculos II e III, em diálogo com o platonismo e com o pensamento religioso do Egito helenístico. A datação é disputada e a autoria é atribuída, não estabelecida — por isso o ano da primeira publicação não consta. Foi a redescoberta destes textos no Renascimento que reacendeu o hermetismo na Europa. Esta edição reúne dezenove peças, traduzidas aqui a partir de quatro fontes em domínio público. Os tratados I a XIV vêm do grego estabelecido por Gustav Parthey em 1854. O XVII e o XVIII vêm do grego da edição príncipe de Adrien Turnèbe, Paris, 1554. O XVI, cujo grego não estava disponível em exemplar legível, foi traduzido do latim de François Foix de Candale, 1574, feito a partir do grego impresso ao lado. O Asclépio, cujo original grego se perdeu, vem do latim estabelecido por Paulus Thomas em 1921; e a Tábua de Esmeralda, do latim recolhido por Jean-Jacques Manget em 1702. Não há tratado XV: o número existe por acidente da numeração moderna, e nada se perdeu ali. O segundo tratado chega mutilado na tradição manuscrita, e é publicado como chega.

Contexto histórico

Em 1463 Cosimo de' Medici mandou Marsílio Ficino interromper a tradução de Platão, já em curso, para verter antes estes tratados. A ordem não era capricho: acreditava-se que Hermes Trismegisto fosse um sábio egípcio anterior a Moisés, e que o Corpus preservasse portanto uma revelação mais antiga que a das Escrituras — uma teologia primordial que concordaria com o cristianismo por ser sua origem, não sua herdeira. Sobre essa convicção se ergueu boa parte do pensamento renascentista, de Pico della Mirandola a Giordano Bruno.

Em 1614 o filólogo Isaac Casaubon desmontou a datação. Examinando o vocabulário, a métrica e as referências dos textos, mostrou que o grego é o da era cristã e não o de qualquer Egito remoto; que os tratados citam autores posteriores a Moisés por muitos séculos; e que a atribuição a um sábio primordial não se sustenta. O prestígio da obra desabou com a data, e o hermetismo saiu do centro do debate erudito europeu.

O que Casaubon derrubou foi a alegação de antiguidade, não os textos. Eles continuam sendo o que sempre foram: documentos de primeira mão do pensamento religioso greco-egípcio dos séculos II e III, escritos onde o platonismo, o judaísmo helenizado e a religião egípcia se encontravam. A ironia é que o próprio Corpus, no tratado XVI, adverte contra o que lhe aconteceu — o desgaste que a tradução impõe a um texto arrancado da sua língua.

Temas da obra

A ascensão do intelecto

O primeiro tratado descreve a subida da alma através das esferas planetárias, deixando em cada uma um vício que ali recebera ao descer. É o esquema que o ocultismo ocidental repetiria por mil e quinhentos anos, e que organiza a ideia de percurso iniciático em graus.

O segundo nascimento

No tratado XIII, Hermes conduz o filho Tat por uma regeneração que não é metáfora moral: doze tormentos são expulsos e dez potências entram em seu lugar. O texto se apresenta como registro de uma operação, não como exortação.

O mundo como coisa boa

Contra a leitura gnóstica que vê a matéria como prisão ou erro, vários tratados afirmam o cosmos como imagem de Deus e obra boa. A tensão entre esses dois modos atravessa a coletânea e nunca se resolve inteiramente.

O que se perde ao traduzir

O tratado XVI pede ao rei Amon que o texto não seja vertido para o grego, porque a língua egípcia carregaria na própria qualidade do som a eficácia daquilo que nomeia. É a objeção mais antiga do acervo contra o trabalho que o publica.

O homem entre duas naturezas

O Asclépio define o homem como composto de mortal e divino, e lhe atribui uma função no mundo que nenhum outro ser cumpre. Daí sai o argumento das estátuas animadas, que Agostinho citaria para condenar a obra inteira.

Conhecimento como salvação

A gnose destes textos não é informação acumulada nem fé professada, mas um reconhecimento que transforma quem o alcança. A distinção é o que separa o hermetismo tanto da filosofia de escola quanto da religião de culto.

Termos relacionados

Poimandres
A figura que se revela a Hermes no primeiro tratado e lhe dá o nome; a etimologia é disputada, e costuma ser lida como "pastor do homem".
Noûs
O intelecto — a faculdade que conhece o divino, distinta da razão discursiva e da sensação. Traduzido aqui sempre como intelecto, nunca como mente.
Logos
O verbo: ao mesmo tempo palavra, razão e princípio ordenador que separa os elementos e os dispõe.
Gnose
Conhecimento que salva por ser alcançado, não por ser aprendido. Não é o mesmo que a doutrina dos grupos ditos gnósticos, embora o vocabulário se cruze.
Ogdóada
A oitava esfera, acima das sete planetárias, onde a alma que subiu se reúne às potências e entoa o hino.
Trismegisto
"Três vezes o maior": epíteto grego para o deus egípcio Tot, que acabou virando nome de um autor suposto.
Asclépio
Discípulo de Hermes nos diálogos, e título do tratado latino que fecha esta edição. Não confundir com o deus grego da medicina, de quem toma o nome.
Tábua de Esmeralda
Texto brevíssimo de origem árabe medieval, alheio ao Corpus grego mas ligado a ele pela tradição alquímica, de onde vem "o que está abaixo é como o que está acima".

Sobre o autor

Atribuído a Hermes Trismegisto

Não é pessoa histórica. É a figura greco-egípcia que funde Hermes e Tot, a quem se atribuíram os tratados helenísticos do Corpus Hermeticum. Os textos são dos séculos II e III; a atribuição a um sábio egípcio primordial foi aceita até Isaac Casaubon datá-los, em 1614.

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