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Por que o tarô tem 22 arcanos maiores

O número veio de um jogo italiano do século XV. A correspondência com as letras hebraicas só apareceu em 1781 — e depois foi refeita, deslocando tudo em uma casa.

Vinte e duas cartas dispostas em fileira sobre fundo escuro, com filete dourado marcando a primeira e a última

Os vinte e dois arcanos maiores são vinte e um trunfos numerados mais o Louco, que não tem número. Esse total veio de um jogo de cartas italiano do século XV — e a explicação que hoje se dá para ele, a de que corresponde às vinte e duas letras do alfabeto hebraico, só apareceu em 1781, mais de trezentos anos depois. O número é antigo; o significado atribuído a ele, não.

O que são os arcanos maiores

Um baralho de tarô completo tem setenta e oito cartas, divididas em dois grupos.

Cinquenta e seis são os arcanos menores: quatro naipes de catorze cartas, muito parecidos com um baralho comum, só que com uma figura a mais por naipe.

As outras vinte e duas são os arcanos maiores — cartas que não pertencem a naipe nenhum. Vinte e uma são numeradas, do Mago ao Mundo. A vigésima segunda é o Louco, que na maioria dos baralhos históricos não traz número algum.

"Arcano" quer dizer segredo, coisa fechada. O nome é bem posterior às cartas: quem as criou não as chamava assim.

De onde o baralho realmente vem

O tarô nasce no norte da Itália, em meados do século XV, e nasce como jogo.

Os baralhos mais antigos que sobreviveram foram pintados por volta de 1440 para os Visconti-Sforza, a família que governava Milão. O primeiro registro escrito do jogo aparece nos autos da corte de Ferrara, em 1442, com o nome de carte da trionfi — cartas de triunfo.

É dessa palavra que vem "trunfo" em português. As cartas extras eram literalmente isso: uma quinta série que vencia as outras quatro, exatamente como o trunfo funciona em qualquer jogo de baralho até hoje.

E o padrão demorou a se firmar. Baralhos com o formato que conhecemos — quatro naipes de catorze mais vinte e dois trunfos — só começam a ser documentados por volta de 1457.

Não era adivinhação

Esta é a parte que costuma surpreender: não existe documento algum de uso divinatório do tarô antes do século XVIII.

Durante uns trezentos anos, o tarô foi um passatempo de corte — jogo de estratégia e de aposta, jogado por nobres na Itália e na França, sem qualquer camada mística. A leitura simbólica é um segundo uso, acrescentado muito depois, sobre um objeto que já existia pronto.

Por que exatamente vinte e dois

Aqui está o ponto que quase toda página sobre o assunto inverte.

A explicação corrente é que os arcanos maiores são vinte e dois porque o alfabeto hebraico tem vinte e duas letras. A ordem dos fatos é a oposta: o baralho já tinha vinte e dois trunfos, por razões de jogo, e a correspondência com o alfabeto foi proposta séculos mais tarde por alguém que olhou para o número pronto e viu uma coincidência.

Por que o jogo parou em vinte e um trunfos mais o Louco, ninguém sabe com certeza. Os baralhos italianos primitivos variavam: há exemplares com mais trunfos e outros com menos. O vinte e dois se firmou no padrão que a França depois industrializou — o chamado Tarô de Marselha —, e foi esse padrão que o ocultismo do século XVIII encontrou já cristalizado.

Quem ligou as cartas às letras hebraicas

O primeiro a escrever essa correspondência foi Antoine Court de Gébelin, num ensaio publicado em 1781, dentro da sua obra Le Monde Primitif.

Court de Gébelin afirmou duas coisas ao mesmo tempo: que o tarô era um remanescente da sabedoria do antigo Egito, e que os vinte e dois trunfos correspondiam às vinte e duas letras hebraicas. As duas teses não se sustentam juntas com facilidade — o Egito não tinha alfabeto —, mas foi assim que ela nasceu.

Vale situar o momento. Court de Gébelin escreveu quatro décadas antes de Champollion decifrar os hieróglifos. Naquele contexto, "egípcio" funcionava nas letras francesas como sinônimo de sabedoria primordial — não era uma afirmação arqueológica, era uma figura de linguagem que ele levou a sério demais.

Lévi e a primeira atribuição sistemática

A ideia ficou circulando até Éliphas Lévi transformá-la em sistema, no Dogma e Ritual da Alta Magia, publicado entre 1854 e 1856 — obra que está na nossa Biblioteca em tradução própria.

Lévi não apenas repetiu a correspondência: amarrou o tarô à cabala, à astrologia e à alquimia num só corpo doutrinário. É a partir dele que "tarô e cabala" viram um assunto único.

Na atribuição de Lévi, a primeira letra, Aleph, cai sobre o Mago. O Louco, por não ter número, ele coloca perto do fim da série — na penúltima posição, logo antes do Mundo — e o liga a Shin.

Há um detalhe que amarra este artigo a outro. As correspondências cabalísticas de Lévi se apoiam em Athanasius Kircher, o jesuíta que em 1652 publicou o diagrama que praticamente todo mundo conhece como a Árvore da Vida com os dez Sephirot e os vinte e dois caminhos. Os vinte e dois caminhos da Árvore e os vinte e dois arcanos são o mesmo número pela mesma razão: as vinte e duas letras.

A Golden Dawn desloca tudo em uma casa

No fim do século XIX, a Ordem Hermética da Golden Dawn — sociedade iniciática inglesa que reorganizou boa parte do ocultismo moderno — refez a atribuição.

A mudança parece pequena e não é. A Golden Dawn tirou o Louco do fim e o pôs no começo da série, dando-lhe Aleph. O Mago, que em Lévi era Aleph, passou a Beth. E, como consequência, toda a sequência desloca uma casa — cada carta recebe a letra que antes pertencia à anterior.

Junto com as letras deslocam-se as atribuições astrológicas, porque elas vinham pregadas às letras. Uma decisão sobre onde colocar uma carta sem número reorganizou o sistema inteiro.

CartaLévi (1856)Golden Dawn
O LoucoShin — penúltimo, antes do MundoAleph — primeiro de todos
O MagoAlephBeth
A PapisaBethGimel
A ImperatrizGimelDaleth
O MundoTauTau

Repare que o Mundo é o único que não se move. Ele fecha a série nos dois sistemas — e é justamente por isso que o deslocamento das outras vinte e uma cartas precisa acontecer todo de uma vez.

Comparação visual entre duas sequências de vinte e duas posições, com a primeira carta deslocada de uma casa entre elas
A posição do Louco é o que separa os dois sistemas — e ela desloca todo o resto.

A razão da divergência

As duas atribuições não divergem por capricho. Lévi partiu de Kircher, cujas correspondências são de tradição cristã e hermética. A Golden Dawn preferiu apoiar-se no Sefer Yetzirah, texto judaico bem mais antigo, que organiza as letras em três grupos — três letras-mães, sete duplas e doze simples.

Duas fontes diferentes, duas ordens diferentes. Nenhuma das duas é arbitrária; elas simplesmente não podem estar as duas certas.

Três, sete e doze: a estrutura por trás do vinte e dois

Para entender por que a escolha da Golden Dawn não foi arbitrária, é preciso ver como o Sefer Yetzirah organiza as vinte e duas letras. Ele não as trata como uma fila. Divide-as em três grupos desiguais.

GrupoQuantasA que correspondem
Letras-mães3três elementos: ar, água e fogo
Letras duplas7os sete planetas clássicos
Letras simples12os doze signos do zodíaco

Três mais sete mais doze dão vinte e dois. As letras-mães são Aleph, Mem e Shin — e essa identificação é antiga o bastante para aparecer nos grimórios da tradição: a Chave de Salomão, na edição de 1889 que traduzimos, registra em nota que essas três são os símbolos literais do ar, da água e do fogo, "que o Sefer Yetzirah chama as três letras-mães".

Agora a consequência para o tarô. Se cada letra carrega um elemento, um planeta ou um signo, então atribuir uma letra a uma carta é atribuir também a astrologia dela. Não são duas decisões, é uma só.

É por isso que deslocar o Louco de uma casa não desloca apenas letras. Desloca qual carta é regida por Saturno, qual pertence a Áries, qual carrega o elemento fogo. Um sistema inteiro de correspondências gira junto.

Qual baralho segue qual

Na prática, isso separa as duas famílias de baralho mais usadas.

O Tarô de Marselha, o padrão francês que industrializou o desenho italiano, é anterior a toda essa discussão — não traz letra nenhuma impressa, e quem o usa aplica a atribuição que preferir, normalmente a de Lévi.

Os baralhos herdeiros da Golden Dawn, ao contrário, já foram desenhados dentro do sistema deslocado: a ordem das cartas, os símbolos que aparecem em cada uma e as cores seguem as correspondências da Ordem. Neles a atribuição não é uma camada aplicada por cima — está na imagem.

Qual das duas está certa

Nenhuma, no sentido que a pergunta sugere — e é importante dizer isso com clareza.

Não existe uma atribuição original a ser recuperada. O baralho foi criado como jogo, sem letra hebraica nenhuma em vista. Toda correspondência entre arcano e letra é uma leitura posterior, proposta por autores identificáveis, em datas conhecidas, com objetivos declarados.

Isso não as torna inúteis. Um sistema de correspondências vale pelo que organiza e pelo que permite pensar, não por uma antiguidade que ele não tem. A atribuição da Golden Dawn é a que a maioria dos baralhos modernos segue, e é a mais coerente com o Sefer Yetzirah. A de Lévi tem a vantagem de vir com um corpo doutrinário inteiro em volta.

O que não se sustenta é a afirmação — repetida em quase toda parte — de que a correspondência é imemorial. Ela tem autor, e tem menos de duzentos e cinquenta anos.

O que isso muda numa leitura

Muda menos do que se teme e mais do que parece.

Para ler uma carta pelo que ela mostra — a imagem, a posição na tiragem, a relação com as vizinhas — a atribuição hebraica é dispensável. Séculos de leitura foram feitos sem ela.

Ela passa a importar quando se quer cruzar o tarô com outro sistema: quando a carta precisa conversar com um caminho da Árvore da Vida, com um signo ou com uma letra. Aí a escolha entre Lévi e Golden Dawn deixa de ser detalhe histórico e passa a mudar o resultado — e é por isso que vale saber qual das duas o material que você está usando adotou.

Vale notar também que a Cruz Celta, a tiragem de dez posições mais usada no mundo, vem justamente da Golden Dawn. Quem aprende a ler por ela já está, sem necessariamente saber, dentro do sistema que deslocou as letras.

Por onde começar

A ordem que funciona é a inversa da que a curiosidade sugere: primeiro as cartas, depois as correspondências. Quem começa pela tabela de letras decora um sistema sem ter o que colocar dentro dele.

Na tiragem de tarô da Mystes cada carta vem com a imagem, o sentido e a posição que ocupa na leitura — que é o material de que as correspondências precisam para significar alguma coisa. As letras vêm depois, e aí já se sabe por que elas foram postas ali.

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