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Ain Soph: os três véus acima da Árvore da Vida
Ain, Ain Soph e Ain Soph Aur: o que cada termo é na Cabala judaica, de que século vem — e quem os pôs em fila como três véus acima de Kether, em 1887.

Ain Soph é o nome que a Cabala dá ao Infinito anterior à Árvore da Vida — em hebraico, "sem fim". Na Cabala hermética ele vem junto de dois outros termos, Ain, o nada, e Ain Soph Aur, a luz sem limite, e os três formam os "três véus da existência negativa", postos acima da primeira esfera da Árvore. Cada um dos três tem raiz na Cabala judaica, em séculos diferentes e com papéis diferentes. A sequência dos três véus é de MacGregor Mathers, que a publicou em 1887.
O que significa Ain Soph
Ein sof, em hebraico, quer dizer literalmente "não há fim". A grafia varia conforme a língua de quem transcreveu: Ein Sof nos estudos judaicos, En-Soph nos autores do século XIX, Ain Soph na Cabala hermética de língua inglesa, que é a forma mais comum em português.
O nome aponta para o que não pode ser dito de outro jeito. Ain Soph é Deus antes de qualquer manifestação — antes de ter atributo, forma ou nome próprio. Por isso a tradição só o nomeia pela negação: sem fim, sem limite. A filosofia judaica já tinha feito dessa cautela um método. Maimônides, no Guia dos Perplexos, escrito por volta de 1190, sustenta no capítulo 58 do primeiro livro que os únicos atributos verdadeiros de Deus são os negativos: dizer que ele existe é dizer apenas que a sua não existência é impossível. Helena Blavatsky, que escreve sobre ele em 1877, resume o cuidado dos cabalistas numa frase, na tradução da Mystes da Ísis sem Véu:
"Os cabalistas jamais olharam o invisível En-Soph senão como um Poder."
Para entender o que fica "acima" dele, é preciso a Árvore. A Árvore da Vida é o diagrama de dez esferas, as Sephiroth (no singular, Sephirah), ligadas por vinte e dois caminhos. A primeira esfera, no alto, é Kether, a Coroa; a última, embaixo, é Malkuth, o Reino. Tudo o que existe se desdobra de Kether para baixo. Ain Soph é o que vem antes de Kether — e, por isso, fora do desenho.
Os três véus da existência negativa
Na forma que circula hoje, acima de Kether não há uma coisa só, mas três, dispostas como véus concêntricos: quanto mais afastado da Árvore, mais completo o silêncio. A expressão "existência negativa" diz o que eles são — uma existência que só se define pelo que não é.
| Véu | Hebraico | Tradução | Letras | O que prefigura, segundo Mathers |
|---|---|---|---|---|
| Primeiro, o mais afastado | אין · Ain | o nada | 3 | as três primeiras Sephiroth |
| Segundo | אין סוף · Ain Soph | o sem-limite | 6 | as seis primeiras |
| Terceiro, junto de Kether | אין סוף אור · Ain Soph Aur | a luz sem limite | 9 | as nove primeiras |
A coluna das letras é a parte mais engenhosa do esquema, e quase nunca aparece nas explicações correntes. Em hebraico, ain se escreve com três letras; ain soph, com seis; ain soph aur, com nove. Mathers leu nesses números o desenho da Árvore ainda por vir: cada véu conteria, escondidas, tantas Sephiroth quantas são as suas letras. O terceiro véu, com nove, guarda todas menos a última — e a décima, Malkuth, é a única que nenhum véu prefigura.
Os três se concentram num ponto, e esse ponto é Kether. Mathers escreve que Kether é, nesse sentido, a Malkuth das ideias ocultas: o mais alto do que existe é o mais baixo do que ainda não existe. O topo da Árvore funciona como o chão dos véus.
De onde vem cada termo
Os três termos existem na Cabala judaica. O que não existe nela é a fila dos três, e é aí que a maior parte do que se lê em português se confunde: apresenta os véus como herança antiga, quando cada palavra vem de um século e de uma escola, e com um papel que nem sempre é o de véu.
Ein Sof: o termo de Azriel de Girona
O uso de Ein Sof como termo técnico aparece com Azriel de Girona, cabalista catalão que viveu entre por volta de 1160 e 1238. A expressão pode ter vindo de mais longe: o poeta e filósofo Salomão ibn Gabirol, no século XI, já chamava Deus de "o Sem-fim".
Nos cabalistas judeus, Ein Sof não é uma etapa, nem o segundo de três. É o próprio Deus em si, anterior a todas as Sephiroth e irredutível a elas. As dez esferas são o modo como ele se manifesta; Ein Sof é o que não se manifesta.
Ayin: o nada que é a própria Kether
O nada entra na Cabala pela mesma época e pelo mesmo autor. Como mostra o estudioso do Zohar Nathan Wolski, Azriel de Girona chega a ele pelo pensamento de João Escoto Erígena, teólogo cristão do século IX, que lia a criação "a partir do nada" como criação a partir do nada que é o próprio Deus — tão acima de tudo que só se pode dizê-lo como ausência.
Quando o Zohar é escrito, em Castela, no fim do século XIII, esse Nada — Ayin — já tem lugar fixo: é o nome da Sephirah mais alta. Ou seja, na Cabala judaica o nada é Kether, a primeira esfera da Árvore, e não um véu acima dela. A Cabala hermética pôs fora da Árvore, como o véu mais distante, aquilo que a Cabala judaica punha no topo dela.
Or Ein Sof: a luz de Isaac Luria
A luz vem três séculos depois. Isaac Luria, que ensinou em Safed, na Galileia, e morreu em 1572, descreve a criação a partir de um gesto de recuo: o Infinito, que tudo preenchia com a sua luz — Or Ein Sof, a luz do Sem-fim —, se contrai para abrir um espaço vazio onde o mundo possa existir. O nome desse recuo é tzimtzum.
Em Luria, a luz não é a terceira de três etapas. É o que existe desde o começo e se retira. A ordem hermética — nada, depois sem-limite, depois luz — descreve um acendimento. A de Luria descreve uma retração.
Como, sem véus, o Infinito chega à primeira esfera
Se a Cabala judaica não tem três véus em fila, a pergunta fica: como o que não tem fim chega a ter uma primeira esfera? Os cabalistas de Safed, no século XVI, deram duas respostas, cada uma com uma imagem.
Moisés Cordovero, no Pardes Rimonim, de 1548, pede que se imagine água correndo por vasos de cores diferentes — branco, vermelho, verde. A água parece mudar de cor a cada vaso, mas não tem cor nenhuma; o que muda é o vaso, e o olhar de quem vê. As Sephiroth seriam esses vasos. O Infinito está em cada uma delas por inteiro, sem nada no meio, e a diferença entre uma esfera e outra está no modo de receber, não no que é recebido.
Isaac Luria, que chegou a Safed pouco antes da morte de Cordovero e ensinou ali nos anos seguintes, conta a passagem como movimento. Feito o recuo que abre o espaço vazio, um único raio fino da luz do Infinito — o kav, "a linha" — entra nesse espaço sem chegar a atravessá-lo de todo. É desse raio que nasce a primeira forma do mundo, e ela tem a figura de dez círculos concêntricos. Há círculos em Luria, portanto, mas eles são as próprias esferas ainda por se ordenar, dentro do vazio — não véus postos acima da Árvore.
Nas duas imagens, entre o Infinito e a primeira esfera há continuidade: a mesma água, o mesmo raio. No esquema de Mathers há etapas: três degraus de silêncio, cada um um pouco menos escuro, até o ponto em que a Árvore começa.
O que Mathers fez com os três
Em 1887, Samuel Liddell MacGregor Mathers publicou The Kabbalah Unveiled, a tradução para o inglês de uma parte da Kabbala Denudata, coletânea latina de textos do Zohar editada por Christian Knorr von Rosenroth entre 1677 e 1684. A tradução vem precedida de uma longa introdução de Mathers, e é nela que os três aparecem enfileirados, com as letras contadas e o nome de "três véus da existência negativa".
No ano seguinte, Mathers foi um dos fundadores da Golden Dawn, ordem hermética inglesa, e o esquema passou a organizar a Árvore que ela ensinava. De lá chegou a Aleister Crowley e a toda a Cabala hermética do século XX — e, por esse caminho, aos sites em português que apresentam os três véus sem dizer de onde vêm. Dez anos antes, a Ísis sem Véu fala do En-Soph em seis capítulos e não fala em véus.
Nada disso tira o valor do esquema. A Cabala hermética é uma tradição de pleno direito, feita justamente de sínteses como essa, e a de Mathers tem lógica própria: põe em sequência três maneiras de dizer o indizível, cada uma um passo mais perto da manifestação. O que se perde, quando se esquece a origem, é a noção de que há duas Árvores lidas com as mesmas palavras — e de que, numa delas, o nada está dentro do diagrama.
| Termo | Na Cabala judaica | Na Cabala hermética (Mathers, 1887) |
|---|---|---|
| Ayin / Ain | o nada que é a própria Kether, no Zohar | o primeiro véu, o mais afastado da Árvore |
| Ein Sof / Ain Soph | Deus em si, anterior às Sephiroth (Azriel de Girona) | o segundo véu |
| Or Ein Sof / Ain Soph Aur | a luz que se retrai no tzimtzum (Luria) | o terceiro véu, junto de Kether |
Por que os véus ficam fora da Árvore
Porque a Árvore é um mapa do que se manifesta, e os véus são o que não se manifesta. Nenhum deles é Sephirah, nenhum é contado entre as dez, e nenhum caminho chega até eles. Nos diagramas, costumam aparecer como arcos por cima de Kether, cada vez mais pálidos — a margem do papel, desenhada.
Isso tem consequência para quem estuda a Árvore como percurso. O percurso em graus da Mystes é organizado sobre ela, de Malkuth para cima, uma Sephirah a cada grau, e o mais alto corresponde a Kether. Nenhum grau é atribuído aos véus. Eles marcam onde termina o que se pode mapear — e o fato de a tradição lhes dar nome, sem lhes dar lugar, é a forma mais honesta que ela encontrou de dizer que o mapa não é o todo.
O que não se sabe
A leitura das letras é de Mathers, e só dele. Que ain tenha três letras é fato da língua; que essas três prefigurem as três primeiras Sephiroth é interpretação, e nenhuma fonte judaica anterior a sustenta. O esquema convence pela elegância, não por procedência.
Também fica em aberto o parentesco entre Ein Sof e o "Sem-fim" de ibn Gabirol, um século mais velho: a expressão é próxima, mas não idêntica, e não se sabe se é a origem do termo ou apenas um paralelo. O que se sabe com segurança é que no começo do século XIII o termo já está em uso técnico — e que, trezentos anos depois, Luria o recebe como coisa assentada.
A Árvore inteira — as dez Sephiroth, os vinte e dois caminhos e o que cada esfera nomeia — está no artigo sobre a Árvore da Vida, e as dez esferas podem ser consultadas uma a uma no Compêndio da Mystes.

