Quando o primeiro tomo apareceu, em 1854, dois movimentos opostos disputavam o terreno na França. De um lado, o materialismo científico avançava e tratava toda tradição mágica como resíduo de superstição. De outro, a moda das mesas girantes, chegada dos Estados Unidos poucos anos antes, enchia os salões de Paris de sessões e prometia contato com os mortos a quem pagasse a entrada.
Lévi se coloca contra os dois. Recusa o materialismo, mas recusa também o espiritismo de salão, que considerava crédulo e sem doutrina. O que propõe é uma terceira posição: a magia como ciência antiga, de princípios articulados e prática exigente, herdada da cabala e transmitida por uma corrente que ele mesmo reconstrói — com considerável liberdade — de Moisés e Hermes aos rosa-cruzes. É essa moldura, mais do que qualquer procedimento descrito no Ritual, que o ocultismo do século seguinte herdou.